
Página do Ministério Egípcio do Turismo e das Antiguidades anunciano a descoberta
Autoridades egípcias anunciaram nesta quinta-feira, 15, a descoberta de uma estátua do faraó Ramsés II. O achado volta a despertar uma das questões mais fascinantes da história bíblica: terá sido este o governante que reinava quando Moisés enfrentou o poder egípcio e conduziu os hebreus para fora da escravidão?
Ramsés II, conhecido como Ramsés, o Grande, governou o Egito aproximadamente entre 1279 e 1213 antes de Cristo. Foi um dos faraós mais poderosos e famosos da Antiguidade, responsável por grandes construções, templos monumentais e estátuas que, milhares de anos depois, continuam a impressionar o mundo. O seu longo reinado, que durou cerca de 66 anos, fez dele uma das figuras mais marcantes da história egípcia.
Mas é precisamente a sua época que torna a descoberta agora anunciada particularmente interessante para quem procura compreender o contexto histórico do relato bíblico do Êxodo.
Segundo o primeiro capítulo do livro de Êxodo, os descendentes de Jacó multiplicaram-se no Egito até se tornarem numerosos, sendo que um dos filhos, José, acabou por tornar-se um poderoso governante e braço direito do faraó. Tempos depois, subiu ao trono outro faraó, que não conhecera José, e este faraó passou a olhar para os hebreus como uma ameaça. A Bíblia diz, em Êxodo 1:8-11, que esse governante os submeteu a trabalhos forçados e os obrigou a construir cidades-armazém, entre as quais Pitom e Ramessés.
O texto bíblico identifica, portanto, uma cidade chamada Ramessés, nome que imediatamente chama a atenção quando falamos de Ramsés II. A associação não é uma prova de que tenha sido ele o faraó da narrativa, mas constitui uma das razões pelas quais alguns pesquisadores relacionam o período da XIX Dinastia egípcia com a opressão dos hebreus e os relatos do livro do Êxodo.
A partir daqui, entramos num terreno em que história, arqueologia e interpretação bíblica se encontram, mas nem sempre chegam às mesmas conclusões.
Ramsés II era filho do faraó Seti I e teve como sucessor o seu próprio filho, Merneptá. Estes dados são historicamente conhecidos e aceitos. O que permanece por esclarecer é a identidade do faraó, ou dos faraós, que governavam o Egito durante os acontecimentos descritos no livro de Êxodo.
Se a opressão dos hebreus começou durante o reinado de Seti I, por exemplo, Ramsés II poderia ter sido o faraó que enfrentou Moisés. Nesse cenário, o governante que ordenou ou intensificou os trabalhos forçados seria o pai do faraó do Êxodo. Por outro lado, se os acontecimentos se situaram no final do reinado de Ramsés II ou durante o governo do seu sucessor, Merneptá, poderíamos estar perante outra configuração: Ramsés II seria o próprio faraó da narrativa ou, eventualmente, o pai do governante que a protagonizou.
São possibilidades interessantes, mas não passam de hipóteses. Não existe uma inscrição egípcia conhecida que identifique inequivocamente Ramsés II como o faraó que enfrentou Moisés, nem um documento arqueológico que comprove directamente os acontecimentos tal como são narrados na Bíblia.
Há, contudo, uma segunda cronologia que precisa de ser considerada. Em 1 Reis 6:1, lemos que o início da construção do Templo de Salomão ocorreu 480 anos depois da saída dos hebreus do Egito. Muitos estudiosos que interpretam esta passagem de forma cronológica situam o Êxodo por volta de 1446 antes de Cristo. Se esta data estiver correta, Ramsés II não poderia ter sido o faraó do Êxodo, pois o seu reinado começou quase dois séculos mais tarde.
Uma Hipótese Mais Interessante Para Esta Descoberta
Há, entretanto, uma hipótese alternativa que situa o Êxodo no século XIII antes de Cristo, aproximadamente entre 1290 e 1260 a.C. É nesta segunda cronologia que Ramsés II ganha especial relevância. A cidade de Ramessés, mencionada em Êxodo 1:11, é associada à cidade de Pi-Ramessés, que se tornou um importante centro real durante o seu reinado.
Se esta hipóte for confirmada, e seguindo o relato bíblico, Moisés teria comparecido diante de Ramsés II e exigido, em nome do Deus de Israel, que ele libertasse o povo hebreu. O governante, habituado a exercer um poder praticamente absoluto, recusou-se a ceder. Seguiram-se as pragas descritas no livro de Êxodo, pragas estas que acabaram por ter um papel importante nos eventos que levaram à saída do povo hebreu e à travessia do mar, naqueles que são os acontecimentos centrais da narrativa bíblica.
O sucessor de Ramsés II foi Merneptá, seu filho, e alguns autores consideram a possibilidade de o Êxodo ter ocorrido durante o reinado deste, o que faria de Ramsés II o pai do faraó da narrativa. Esta hipótese, porém, enfrenta dificuldades cronológicas mais difíceis de serem demonstradas.
Existe ainda um dado histórico relevante: a chamada Estela de Merneptá, uma inscrição egípcia datada de aproximadamente 1208 antes de Cristo, contém uma das mais antigas referências extrabíblicas conhecidas a Israel. A inscrição demonstra que um povo identificado como Israel já era conhecido em Canaã nessa época. Para os pesquisadores mais céticos isso não comprova os relatos do Êxodo, mas oferece um ponto de referência importante para o estudo das origens históricas de Israel.
É neste contexto que a descoberta arqueológica noticiada nesta quinta-feira ganha especial interesse. Um casal de agricultores estava trabalhando na sua propriedade no Delta do Nilo quando se depararam com aquilo que depois veio a se cofirmar como sendo a cabeça de uma estátua colossal, com cerca der 8,5 metros. Os agricultores chamaram as autoridades que deslocou para lá um grupo de arqueólogos.
As escavações levaram à descoberta de uma segunda estátua medindo cerca de 2,4 metros, estátua esta que também pode representar Ramsés II. Embora esteja sem as pernas e a base, a peça mantém traços faciais bem conservados e parte do adorno tradicional usado pelos faraós, conhecido como nemes.
Próximo às esculturas, a equipe encontrou ainda um bloco de granito rosa de 1,3 metro de comprimento, com inscrições hieroglíficas que identificam Ramsés II pelos títulos de “Rei do Alto e Baixo Egito” e “Filho de Rá”, referência ao deus solar da mitologia egípcia.
Para os arqueólogos egípcios esta descoberta ainda não endossa os relatos bíblicos, mas o achado aproxima-nos materialmente de um mundo em que a narrativa bíblica situa a opressão do povo hebreu.
Para os leitores da Bíblia, a questão ultrapassa a curiosidade sobre a identidade de um antigo monarca. Em Êxodo 3:7-8, Deus declara a Moisés que viu a aflição do seu povo, ouviu o seu clamor e desceu para o livrar da mão dos egípcios. E é esta intervenção divina, e não o nome do faraó, que ocupa o centro da mensagem bíblica.
Ramsés II poderá ter sido o faraó da opressão, o faraó do Êxodo ou simplesmente um governante que reinou numa época diferente daquela em que os acontecimentos ocorreram. A investigação histórica continua, e as provas disponíveis não permitem encerrar a discussão.
Por enquanto, a estátua permanece como testemunho de um dos grandes governantes da Antiguidade e como convite a revisitar uma das narrativas mais marcantes da Bíblia: a libertação dos hebreus do Egito. A possibilidade de Ramsés II ter sido o faraó que enfrentou Moisés continua a alimentar o debate, mas a distinção entre possibilidade e prova é essencial para compreender cientificamente tanto a história como o texto sagrado. Entretanto, do ponto de vista da fé, os acontecimentos são reais e irrefutáveis.
ANDS | Ministério Egípcio do Turismo e das Antiguidades

