
Voluntária do Leket Israel entrega refeição a uma idosa israelense: Delivery solidário
Desde o pôr do sol do próximo dia 1º de abril até o anoitecer do dia 9, Israel entrará em período de férias. Trata-se do Pessach do ano judaico de 5786. O Pessach, ou Festa dos Pães Ázimos, é um daqueles momentos em que as famílias em Israel se reúnem em torno da mesa. No entanto, infelizmente, nem todos em Israel conseguem desfrutar da festa com a mesma intensidade, seja por não terem família ou por terem poucos recursos. É nesse momento que entra em cena o trabalho do Leket Israel, o Banco Nacional de Alimentos.
Para ilustrar a situação, o Arutz Sheva, o Canal 7 de Israel, compartilhou a história de Rachel, uma sobrevivente do Holocausto que imigrou para Israel com sua única filha e, desde então, vive sem família extensa, sem segurança financeira e sem uma rede de apoio.
Nos primeiros anos, quando ainda tinham vigor, Rachel e sua filha iam todos os dias a um dos restaurantes da Be’er Sova, uma organização sem fins lucrativos que fornece centenas de refeições diárias a membros vulneráveis da comunidade, incluindo sobreviventes do Holocausto e pessoas que não conseguem se sustentar.
Nos últimos dois anos, a saúde de Rachel deteriorou-se e uma grave deficiência a impediu de sair de casa. Ela ainda conta com o apoio da filha, mas esta também é idosa, e a situação financeira das duas não é das mais confortáveis. Por conta disso, a ida ao restaurante da Be’er Sova tornou-se mais difícil, e foi aí que os voluntários do Leket Israel passaram para um outro patamar de atendimento, passaram a atender à Rachel e à filha na sua própria casa.
É aqui que o relato do Arutz Sheva se torna ainda mais emocionante. Ao site da emissora, Rachel disse que, quando ela e a filha ouvem baterem na porta, elas sabem que os voluntários estão chegando, e que além da refeição quente e nutritiva, eles trazem também companhia, o que ajuda a aliviar a solidão.
“Aguardo ansiosamente cada visita”, diz Rachel. “Não só pela comida, mas também pelo carinho e pelo sorriso. Isso nos dá força.”
A história de Rachel é apenas uma entre dezenas de milhares em Israel. Neste ano, porém, em decorrência da Operação Leão Rugidor, ela ganha ainda mais relevância. A complexa situação de segurança e o crescente custo de vida provocaram um aumento acentuado no número de pessoas que recorrem ao Leket Israel por causa da insegurança alimentar.
Como organização guarda-chuva, o Leket Israel trabalha em parceria com mais de 300 organizações sem fins lucrativos, oferecendo refeições prontas, alimentos, frutas e verduras doadas por produtores e supermercados. No total, a entidade atende cerca de 470 mil israelenses necessitados — judeus ou não —, incluindo idosos, crianças e famílias em situação de vulnerabilidade.

Refeições preparadas e/ou organizadas numa das centrais do Leket Israel
Diante do impacto da guerra e da crescente necessidade de assistência, o esforço para garantir que ninguém fique sem comida tornou-se verdadeiramente uma missão nacional. É nesse contexto que uma antiga tradição judaica, o Ma’ot Chitim, ganha ainda mais relevância em todo o país.
Na tradição judaica, Ma’ot Chitim representa uma das mais antigas e significativas práticas de caridade associadas à celebração do Pessach. O termo hebraico significa literalmente “dinheiro para o trigo” (Ma’ot = moedas ou dinheiro; Chitim = trigo). A prática também é conhecida pelo nome aramaico Kimcha d’Pischa, que significa “farinha para o Pessach”. Seu objetivo principal é ajudar as famílias mais pobres a se prepararem com dignidade para o feriado.
A prática consiste em uma campanha especial de doações (tzedaká) realizada pelas comunidades judaicas antes do Pessach. O dinheiro arrecadado serve para que os necessitados possam comprar não apenas o matzah (o pão sem fermento típico da data), mas também farinha kosher, vinho, carne, legumes e outros alimentos essenciais. Além da comida, o valor doado também permite que as famílias adquiram roupas novas ou cubram outras despesas relacionadas ao Sêder de Pessach, o jantar cerimonial da Páscoa judaica.

A ideia central por trás do Ma’ot Chitim é que ninguém fique privado de celebrar o Pessach com dignidade. Essa preocupação reflete diretamente o espírito da Hagadá de Pessach, o livro lido durante a festa, que traz a proclamação: “Todo aquele que tem fome, venha e coma”.
A origem da tradição remonta a tempos muito antigos. Ela já era mencionada no Talmude de Jerusalém, uma coletânea de preceitos judaicos com mais de 1.600 anos. Historicamente, as comunidades recolhiam trigo ou farinha para que os mais pobres pudessem assar as próprias matzot. Com o passar dos séculos, a prática evoluiu para doações em dinheiro, o que hoje facilita a vida dos beneficiados, permitindo que eles cubram todos os custos extras do feriado.
A coleta começa 30 dias antes do Pessach, geralmente no início do mês de Adar ou no começo de Nissan, e se estende até o Shabbat que antecede o feriado. Atualmente, praticamente todas as sinagogas, organizações religiosas, hospitais, escolas e instituições judaicas realizam suas próprias campanhas de Ma’ot Chitim. Muitos judeus mantêm o hábito de doar todos os anos como parte da preparação espiritual para o Pessach.
E é em momentos como este que a nação de Israel se mostra ainda mais solidária. Por tudo o que o seu povo já passou, Israel tem hoje uma das sociedades mais solidárias do mundo. Pessoas como Rachel, a sobrevivente do Holocausto, e sua filha agradecem por terem o privilégio de viver em um país que aprendeu a lidar, de forma coletiva, com as necessidades uns dos outros.
Israel é, sem dúvida, um país que tem muito a ensinar à humanidade.
ANDS | ARUTZ SHEVA

